Tsunami! Vai, levanta a mão, pedofilia não!

Manifestação contra o Abuso e a Exploração Sexual da Criança e do Adolescente para, por alguns instantes, o centro comercial de Juiz de Fora. Tudo no dia 18 de maio.


Reportagem: Leonardo Pelicarto e Wellerson Cassimiro

Fotos: Wellerson Cassimiro

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Três horas da tarde. Um grupo de jovens e adolescentes, estudantes em sua maioria, começa a se reunir diante do prédio histórico do poder legislativo, no Parque Halfeld, no centro de Juiz de Fora. Amiúde, parece ser um show de rock n’ roll ou uma festa de música eletrônica. Alguns portam modernas pulseiras, bonés e reluzentes relógios. Os tênis são os mais coloridos possíveis. Trajam bermudas, calças largas e camisas com diversificadas estampas. Aliás, se apropriando do dialeto da tribo jovem, as estampas são iradas. No entanto, enganou-se quem pensou que fosse solos de guitarras ou uma rave. Aos poucos, pelo chão espalhados, vão surgindo cartazes com frases de protestos, pintados ali mesmo, à mão. Cada minuto e segundos que se passam, mais jovens unem-se ao grupo. De repente, como um estalar de dedos, a frente do prédio está tomado por um tsunami de adolescentes. Os cartazes que estavam no chão, instantes atrás, são erguidos com efervescente euforia. O mistério está desvendado. É dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e a Exploração Sexual da Criança e do Adolescente. A manifestação é promovida pela Organização não-governamental (ONG) Makanudos, da cidade de São Paulo, e é acompanhada de perto por alguns políticos como, o vereador Isauro Calais (PMN), que circula por entre os adolescentes.

Um coro de protesto

Às três e meia, os jovens começam sua marcha. Palco para inúmeros movimentos sociais, políticos e religiosos, o Calçadão da Rua Halfeld foi invadido pelo tsunami de jovens estudantes. As pessoas que transitam pelo largo passeio são surpreendidas com gritos e aclamações. Em coro e com expressões faciais nada fraternos, os jovens gritam: “Vai levanta a mão, pedofilia não!” E, não é para menos. Segundo informações de 2009 do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de Minas Gerais (CEDCA/MG), a cada minuto quatro crianças sofrem algum tipo de abuso sexual no Brasil e, 90% dos casos não são resolvidos.

O estudante Marcos de Souza, 17 anos, afirma que a Marcha contra o abuso sexual da criança e do adolescente acontece na cidade com o objetivo de mobilizar os adultos, as autoridades políticas, de segurança pública e, também, sensibilizar as próprias crianças e adolescentes a combater, denunciar e punir os casos de pedofilia. “Queremos despertar a sociedade para esse mal que está entre nós”, alerta. A estudante Larissa de Carvalho, 14, apresenta esperanças com a manifestação. E, que por alguns momentos, some por entre muitos braços e cartazes levantados. “Estamos colocando a boca no mundo e creio que haverá mudanças”. Segundo um dos líderes da ONG em Juiz de Fora, Raquel Timotéo, um projeto piloto tem sido desenvolvido com os adolescentes da Escola Estadual Fernando Lobo, no bairro São Mateus. Os temas trabalhados são os mais diversos, relacionados à juventude como, sexualidade, drogas, HIV, dentre outros. “Hoje, estamos trabalhando a questão da pedofilia devido ao crescente número de casos que estão surgindo no país”. Ela revela que a divulgação da marcha foi feita através da internet, campanhas nos bairros e flash mobs (aglomerações instantâneas de pessoas em um local público, para realizar determinada ação inesperada, previamente combinada. Logo depois, as pessoas se dispersam tão rapidamente quanto se reuniram, comum nos Estados Unidos).

Notas musicais

“Se você manda no seu nariz, mande bem, participe” e “Se você não pensa no seu futuro, eu penso no meu” são duas das frases que estampam algumas camisas usadas pelos adolescentes. A forte passos, os adolescentes chegam a outra principal via da cidade: a Avenida Getúlio Vargas. O trânsito é interrompido por alguns instantes para a passagem da massa jovem. As sacadas e janelas dos edifícios comerciais são tomadas por curiosos. Por volta das cinco horas da tarde, o tsunami chega à Praça Antônio Carlos. E, a juventude toma posse do palco da praça. Alguns adolescentes conduzem a moçada com canções pra lá de inusitadas. Como um coral, os jovens entoam: “Vai limãozinho, vai! Vai limãozinho! Vai limãozinho, vai! Vai limãozinho!”. A animação é geral. Depois resolvem cantar em outro idioma. Primeiro, na língua inglesa e depois em espanhol. E, a galera acompanha com algum enrolar de língua. Para o estudante do último ano do Ensino Médio, Renato Dias, 17, a passeata mostra à cidade que os jovens não estão alienados aos acontecimentos sociais, econômicos e políticos do país. “Muitos acham que, os adolescentes só curtem as baladas e azarações. Mas, eles estão enganados. Estamos bem antenados com o que acontece no mundo e já reivindicamos nossos direitos”. A manifestação foi encerrada com o show da banda de rock gospel Rede Ativa, da cidade de São Paulo.

Segundo a pesquisa “Vítimas da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes: Indicadores de Risco, Vulnerabilidade e Proteção” realizada em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, pelo Professor e Doutor em Psicologia Elder Cerqueira Santos, a exploração sexual de crianças e adolescentes, pode ser classificada como um ato de violência e configurar-se como um fator de risco para o desenvolvimento pessoal, ambiental ou cultural, que atuam como obstáculo ao nível individual. Estes fatores potencializam a vulnerabilidade do indivíduo. A criança ou o adolescente pode apresentar um baixo desenvolvimento por conta do trauma emocional e físico. A exploração sexual é o envolvimento de um “cliente”, adulto que paga para fazer sexo com a criança ou adolescente. Quando que o abuso sexual ocorre, em geral, dentro da própria família ou por pessoas próximas como, vizinhos e amigos.

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